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AS MÃES TAMBÉM SOFREM

Em Timor-Leste, durante a ocupação indonésia, muitas mães sofriam…Sofriam ao verem as filhas e os filhos presos, torturados, desaparecidos, feridos e mortos. Também a senhora dona Natália Filipe Horta sofria…Sofria por ver seu Timor (Português) ocupado…sofria por ver os seus irmãos timorenses a sofrer. Sofria por ver um filho morto no mato. Sofria…por ver um filho, não na prisão de Díli ou Cipinang, mas porque era “uma pedra” no sapato dos diplomatas indonésios, sobretudo, dos senhores Mochtar Kusumaatmadja (Ministro dos Negócios Estrangeiros da Indonésia, 1978-1988) e Ali Alatas (Ministro dos Negócios Estrangeiros, 1988-1999). E por causa desse filho da Diáspora, a mãe sofria…Os serviços secretos do Invasor controlavam os seus movimentos, os seus passos, as suas conversas…A senhora Dona Natália sofria tudo isso…mas, sempre, com um sorriso nos lábios e demonstrando grande fortaleza de alma!

Esta manhã (de Portugal) traz-me à memória aqueles momentos difíceis em que muitas mães sofriam, na década dos anos 80 e 90 do século XX.

A senhora dona Natália nunca foi ao Paço Episcopal, em Lecidere-Dili,  para falar comigo. O motivo era óbvio…Mas, nós encontrávamo-nos nas traseiras do hotel Turismo, ou, às vezes, furtivamente, nos corredores das salas de aula do Externato de São José, em Balide. Falávamos de Timor, do filho, diplomata na Diáspora, enfim…do sofrimento do povo timorense…

Eu notava nela, apesar da dor e do sofrimento, uma fortaleza espirito extraordinário. E tinha uma esperança ilimitada que, um dia, iria ver e abraçar de novo o tal filho cujo nome andava nas bocas do mundo…e dos diplomatas indonésios. Iria assistir ao Sol nascente a irradiar cor e beleza num Timor livre e independente!

Mesmo, vivendo num clima de liberdade e de paz, no período de independência, a senhora dona Natália, sempre  quis ser  uma mãe pobre, uma avó discreta, simples e humilde. E eu choro…por ter conhecido Dona Natália Horta…choro por termos (ela e eu), por termos passado juntos momentos de angústia, de sofrimento e de luta num período difícil da nossa história.

Hoje, só quero agradecer a Deus pela vida desta senhora timorense intrépida e corajosa. E rezo ao Deus Altíssimo para que a receba na sua glória e lhe dê descano eterno. Aos filhos, aos netos e a todos os parentes apresento os meus sentidos pêsames, a minha fraterna solidariedade nesta hora de dor e, as minha humildes orações.

 

Porto, 27 de fevereiro de 2018

Dom Carlos Filipe Ximenes Belo

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