shadow
Diocese de Dili > NOTÍCIAS > REFLEXÃO > FINADO EM TIMOR LESTE

FINADO EM TIMOR LESTE

Autoria de: D. Carlos Filipe Ximens Belo, SDB

Publicado em: SEARA, edição Novembro de 2011, P. 30-32.

 

Na cultura Cristã e na cultura Timorense há um ponto de coincidência que é os vivos relembraram os entes queridos, os antepassados e os familiares e amigos. Na tradição cristã, a liturgia consagra o dia 2 de Novembro a memória dos fieis defuntos desde os inícios dos séculos XI.

 

No Credo, os cristão rezam:”creio na ressurreição da carne  ou seja, na vida eterna”. Ressurreição da carne  significa que depois da morte, não haverá somente a vida da alma immortal, mas também os nossos ”corpos mortais” Retomarão a vida (Cf Roma 8, 11). Crer na ressurreição dos mortos, foi desde os seus princípios, um elemento essencial da fé cristã. Nosso Senhor Jesus Cristo havia dito:”Eu sou a ressurreição e a vida(Jo 11,25)”. Ser discípulo de Jesus Cristo é ser testemunha da ressurreição.

 

E os Timorenses, como encaram a morte e a vida ”do além”? antes da entrada nos cenários, os Timorenses eram animistas e acreditavam na existência de um ente supremo, MAROMAK, sinónimo de naroman, que significa “brilhante”, “luz”. Em 1975, a Fretilin publicava a um jornal chamado NAKROMAN (luz). Apesar de crerem na existência de Maromak, os Timorenses cultivam especial culto aos espíritos dos antepassados e aos “lulik”.

Os antepassados são venerados como fonte de vida e protectores dos vivos. Acreditam que são os antepassados que preside os destinos da família e protégé os membros. Por isso, quando alguem morre, os Timorenses realiza cerimónias, como hader mate, hakoi mate, tau ai-funan moruk, ai-funan midar, foti Kruz e Kore metan, etc. O saudoso padre Ezequiel Enes Pascoal, missionário, literato e poeta,  escreveu: ”uma das crencas mais arraigadas entre os Timorenses é de que os mortos (…) se imiscuem no destino e nas actividades dos vivos. Se estes são solicitos em prestar-lhes os obséquios e deveres tradicionais, como sejam as ofertas das primícias na colheita do milho e do arroz, de arroz ou milho cozidos, na inauguração duma nova casa ou a colocação dos mesmos sobre as  sepultures em certas ocasiões, tudo lhes corre bem e gozam de boa saúde. Se, pelo contrário, são remíssos no cumprimentos desses deveres, a doença e outros malefícios não deixam de os apoquenetar, os natives crêem que os mortos aparecem em forma humana a que, em tetum chama mate klamar” (A Alma de Timor vista na sua fantasia, P. 159). Seria interessante descrever tudo o ritual a volta do “hakoi mate” (funeral e enterro). Mas, vou cingir-me ao dia dos fieis defuntos. Como é celebrado este dia, por exemplo, em Baucau?

No dia 2 de Novembro, os que são cristãos vão a Igreja ouvir a missa (rona missa). Por volta das oito ou nove horas de manhã, chegam os familiares e parentes. Segundo o costume, é-lhes oferecido, em primeiro, o malus fatin ou kohe, contendo malus (betel), bua (areca), ahu (cal) e tabaco. Depois de mascarem e fumarem, é-lhes oferecido um copo ou uma caneca de àgua para lavaram a boca; segue-se o “matabicho/matabixo” que consiste em comer fatias de pão (comprador na loja dos Chinêses), bolachas, batata-doce frita, banana frita, amendoim, milho torrado, café e/ou chá. A seguir prepara-se o futo-ai-funan (preparação de capelos e ramalhetes de flores). As crianças que de manhã cedo tinham percorrido as terras vizinhas colhendo flores, trazem cestos (lafatik) cheio flores de mais variadas cores. Alguns homens preparam o chamado “capelo” feito da haste de palmeira ”akar ou tali-tahan”. As mulheres, sentadas numa esteira estendida na varanda ou no pátio, escolham as flores que começam a ser “atadas” e nos capelos, flores essas entrelaçadas de folhas. Entretanto, na cozinha, uma barraca improvisada na véspera, outras mulheres a fadigam-se em voltaa das lareiras cozendo panelas de arroz e de katupa.

Os homens essses matam um cabrito e dois porcos e preparam a carne  para a cozinha. As senhoras tendo como dirigente principal um cozinheiro da administração seguir, cozem a carne  (tein modo) em tachos e panelas a especiaria denominada “modo” leva condimentos como cebola, sal, alho, e uma espécie de erva “duut morin”. Concomitantemente, outros homens preparam outro tipo de iguarias, isto é, assam ao lume a cabeça do porco e do cabrito. Numa pane la, a parte, são cozidos o braço do cabrito, parte do figado e do coração e, que por serem lulik só  serão reservados aos mais velhos. Enquanto, decorre esta azáfama, o katuas, lulik nain (sacerdote gentílico) ou ancião da aldeia leva pedacinhos de carne  (fígado, coração) num “kohe”, para oferecer aos espíritos dos antepassados, num local escondido, atrás dos arbustos e piteiras e cactos. Nesse local, havia umas lajes sobrepostas situadas ao pé de àrvore centenária, um Hali, ou gondoeiro. Alí, o velho depôs os cestinho de arroz de carne, e outro de areca, betel e cal. Longe da barulheira o velho fez as suas rezas. Ao meio-dia tem lugar do almoço. Comem primeiros os homens. Não se sentam a mesa mas todos, sentados em semi-circulo, numa esteira estendida de baixo de uma tenda.

O arroz é servido em pratos de folhas de akadiru; o tuaka (vinho) em copos de bambo; o “modo” (iguarias de carne ), em espécie de uma travessa feita de uma membrane  da arequeira. Nesta ocasião, os membros do clã dos fetosa não podem comer a carne  do cabrito; e os do clã de umanee , não podem comer a carne  do porco. Terminado o almoço, os homens retiram-se para as sombras de um grande ai-kamí, e dão ao início ao tesi-lia, durante o qual dois anciãos representantes, um da facção dos fetosa e o outros dos umane, debate a questao das relações ou alianças ique eram cultivadas e mantidas “na antguidade” pelos seus antepassados; falam de relações que devem continuar a existir nos tempos que decorrem. Mas o ponto fulclar do debate era a questão do barlaque, e sobretudo a dívida que ainda persistia entre os fetosa e umane. O lia-nain dos umane  argumentava que o dia dos matebian era uma boa ocasião para que os fetosa entrgasse o resto do que ficou acordado no ano anterior: um buffalo, uma cavalo e um surik. O representante dos fetosa rebatia dizendo que ele e os seus parentes, até a data, ainda não tinha recebida o que os umane  haviam prometido: 2 porcos e 3 cordas de mortem. O debate animava-se, e os assistentes, mascando bua e malus davam vivas e haklalak apoiando o seu interlocutor…

Como conclusão, pois estava a próxima a hora para ida ao cimitério, são renovados os acordos: as famílias do lado de fetosa deveriam continuar a fornecer buffalos, cabritos e surik (espada de makassar) as famílias de umane, nas grandes ocasiões, como a construção de casa lulik; no casamento; no funeral de um parente e na colheita de arroz. E os membros de umane  continuariam a dar porcos, panos de Timor, mortem ou mutissala (cordões de pedras preciosas).

Seguiu-se  o almoço das senhoras, e só no fim, o dos jovens e das crianças. Por volta das quarto horas da tarde, organizou-se a procissão para o cimetério (Bibi-dala). Para a deposição de flores nas sepultures dos antepassados e dos parentes recentemente falecidos. Chegados ao local, todos permanencem em siléncio. Observado este ritual, a mulher do katuas lia-nain manda distribuir os kapelos de flores e uma vela, a cada um dos presents, começando pelas mais importantes: o liurai, o dato, o ancião, o mestre, catequista, o enfermeiro e o guarda-fio, por fim, os homens e os jovens. Chegou a vez das senhoras: a prioridade era dada liurai feto, seguindo-se a professora, a catequista, …etc. aos adolecentes e crianças são entregues ramalhetes de flores ou, apenas um punhado de pétalas. Todos depõem sobre a campa e,  a seguir, ascendem as velas. Durante este tempo, reza-se o terço ou seis Pai Nosso, seis Ave Marias e seis Glórias. Finda a oração, era a vez do ancião, colocar sobre as sepultures um cestinho com betel, areca, cal e tabaco, e um prato de folha de akadiru (lutero) contend arroz e pedaços de carne.

Terminado este acto de sufrágio e de comemoração todos regressam à aldeia, onde será servido o juntar “gentílico”. À hora da chegada, a entrada do pátio, todas as pessoas são aspergidas com àgua de coco por um ancião, usando como hissope um ramo de ai-ata(anona). Na varanda trageira da casa, estava estendida uma esteira onde foram colocados objectos pertencentes aos antepassados, retirados da casa lulik: sete surik (espadas), sete tais (panos de Timor), sete kohe (bornal de folha de palmeira), pratos chinee ses antigos, uma rota (bastão), belak (discos de ouro ou de prata), kaibauk (mei luas de ouro ou de prata), mortem, sete pratos de katupa, sete pratos de carnee  e sete copos de bamboo contendo tuaka.      Entretanto, todos os membros dois clãs (fetosa e umane ) já se haviam reunido à volta da esteira levando cada pessoa, uma vela ou um “kesak de kamii”. O sacerdote gentílico, em silêncio, murmura umas orações imperceptíveis. Certamente estaria a impetrar juntos dos matebian, favores, graças e benefícios sobre os vivos, sobre os campos de arroz(natar) e de milho (toos), sobre o gado (kuda, karau no bibi)…etc. a assembleia permanence em profundo silêncio.

 Por fim, o ancião, em voz alta, declara: “que para o ano, não entrem, nem doenças, nem desgraças nos nossos lares e povoações…que haja abundância de chuvas para a cultura de arroz e de milho; que os animais tenham crias…. Que a fonte da aldeia não venha a secar…. E que os nossos filhos que estão no tasi balu (estrangeiro) estejam de saúde e voltem depressa….”. Feita esta cerimónia “gentílica” segue-se o jantar. A noite é passada com jogos de cartas, conversas amenas intercalados com canções. A vigília prolonga-se a até o surgir da estrela matutina. Ao promeiro cantar do galo (cerca de três horas), começa a devandada. Os fetosa regressam à suas aldeias levando um porco e um Tais. E os umane, um cabrito e um surik de Makassar. Neste dia de matebian, os antepassados foram, mais uma vez recordados. E a aliança entre fetosa e umane  ficou mais vez selada. É, um ramo de  ai-sukaer (tamarindo), mais um chifre do cabrito ficou alí pendurado….. a recordar aos vindoros este memorável dia. É por causa destas e doutras razões, que os Timorenses, todos os anos, regressam às suas aldeias de orígem para celebrar do dia dos finados ou de matebian. (SEARA, Novembro de 2011, P. 30-32).

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *